O libertinismo é uma daquelas palavras que provoca uma reação imediata: uns erguem uma sobrancelha, interessados; outros desviam o olhar. Na minha loja, ouço muitas vezes: «gostávamos de experimentar, mas nem sequer sabemos por onde começar». E, sinceramente, é compreensível. Porque o libertinismo não é uma prática única — é um espectro. Um vasto conjunto de formas de viver a sexualidade fora do quadro monogâmico clássico, com regras próprias para cada prática, códigos não escritos e rituais de consentimento. Há tantos libertinismos quantos libertinos. O que quero fazer aqui é dar-te um verdadeiro panorama: nomear cada prática, explicá-la honestamente e definir os seus contornos. Não para te convencer de nada — mas para que saibas exatamente do que estás a falar antes de te lançares, ou antes de responderes à pergunta «e tu, qual é a tua prática?» numa festa em que talvez não estivesses à espera de ser testada.
Libertinismo: uma definição clara (e sem romantismo excessivo)
O libertinismo designa o facto de ter relações sexuais ou práticas eróticas fora do casal exclusivo, com o consentimento de ambos os parceiros. Essa é a chave: consentimento mútuo e transparência total. Não se trata de traição, nem de uma aventura escondida. Trata-se de uma sexualidade assumida, escolhida e, muitas vezes, muito organizada.
Historicamente, a palavra remete para uma filosofia de liberdade — os libertinos do século XVIII rejeitavam as restrições religiosas e morais impostas à sexualidade. Hoje, abrange um conjunto muito concreto de práticas, que vai desde o soft swing (trocam beijos com outro casal, sem ir mais longe) até festas de gang bang organizadas. Entre ambas, existem cerca de dez práticas distintas, cada uma com o seu próprio código.
O que observo nos casais que entram pela primeira vez na minha loja no modo «estamos a questionar-nos sobre o libertinismo»: imaginam muitas vezes algo muito monolítico — o swing clássico, os clubes com sofás escuros. A realidade é muito mais diversificada e, muitas vezes, muito menos dramática.
O panorama completo das práticas libertinas
O soft swing: a forma de iniciação mais comum
O soft swing (ou swing soft) consiste na troca de parceiros limitada aos preliminares e às carícias. Beijamo-nos, tocamo-nos e podemos praticar sexo oral — mas a penetração fica reservada ao parceiro oficial. É frequentemente a primeira prática que os casais curiosos experimentam, porque permite testar a dinâmica de uma festa a vários sem ultrapassar aquilo que consideram um limite importante.
É também a prática que revela mais rapidamente se um dos parceiros se sente menos à vontade do que pensava. O ciúme, a excitação e a emoção depois da festa: tudo isso surge muito depressa no soft swing. Não é um «libertinismo ligeiro» sem consequências — é uma verdadeira experiência emocional que merece uma preparação séria.
O swing: a prática mais conhecida
O swing consiste na troca completa de parceiros entre dois casais. As quatro pessoas têm relações sexuais, em conjunto na mesma divisão ou separadamente, em divisões diferentes (nesse caso, fala-se de «prática em separado» ou «closed door»). A distinção entre «open door» (todos juntos) e «closed door» (cada casal troca de parceiro separadamente) é fundamental — e é frequentemente o primeiro ponto a negociar antes de uma festa.
O swing num clube libertino é muito estruturado. Existem regras implícitas que todos respeitam: não se toca sem um sinal claro de consentimento, aceita-se uma recusa sem discussão e nunca se insiste. Os casais experientes desenvolveram muitas vezes um código entre si — um gesto, uma palavra — para dizer ao outro que não se sentem confortáveis com algo sem criar constrangimento social.
O triolismo: a três, com todas as suas configurações
O triolismo é uma relação sexual a três. As configurações são variadas: duas mulheres e um homem (FFH), dois homens e uma mulher (HHF), três mulheres (FFF) ou três homens (HHH). Cada configuração tem a sua própria dinâmica, e o facto de um casal ter vontade de experimentar o triolismo não significa que ambos os parceiros queiram necessariamente a mesma configuração.
O que ouço muitas vezes: um homem propõe um FFH a pensar que a parceira vai aceitar automaticamente. Nem sempre é assim — e vice-versa. A conversa prévia é indispensável: quem é a terceira pessoa? Como a encontraram? Que relação emocional poderá existir com ele ou com ela? É uma pessoa desconhecida, um amigo ou alguém da comunidade libertina? Estas questões não são pormenores.
O candaulismo: o prazer do olhar
O candaulismo é uma prática em que um dos parceiros sente prazer ao ver o outro ter relações sexuais com uma terceira pessoa ou ao expô-lo ao olhar de terceiros. O nome vem do rei Candaules da Lídia, que convidava o seu guarda a contemplar a beleza da sua mulher sem que ela soubesse — o que acabou muito mal, mas adiante.
Na sua versão moderna e consensual, o candaulismo pode assumir formas muito variadas: ver o parceiro com outra pessoa, deixar alguém observar enquanto se tem relações sexuais ou até partilhar fotografias ou vídeos do parceiro com outras pessoas (este último ponto exige um consentimento extremamente explícito, idealmente documentado). É uma prática muito ligada ao voyeurismo e ao exibicionismo, frequentemente entrelaçada com a vertente do controlo/posse num sentido positivo e assumido.
Múltiplos parceiros e noites em clubes
As noites em clubes libertinos permitem encontros com várias pessoas na mesma noite. É possível mudar de parceiro várias vezes, participar em cenas coletivas, observar ou ser observado. Não é uma anarquia total — a maioria dos clubes sérios tem um regulamento rigoroso: vestuário obrigatório à entrada, regras de consentimento afixadas, um espaço de retiro acessível a qualquer momento e pessoal presente para intervir, se necessário.
Aquilo que os clubes libertinos bem geridos têm frequentemente e que as festas privadas não têm: um enquadramento neutro. Não há qualquer obrigação social de ficar por ser em casa de um amigo. Pode-se sair. Pode-se recusar. Pode-se sentar no bar e não fazer nada. Esta liberdade de não participar é muitas vezes subestimada pelos principiantes, que imaginam que entrar num clube libertino implica uma participação obrigatória.
Gang bang e bukkake: as práticas mais intensas
Gang bang designa relações sexuais de uma pessoa com vários parceiros, muitas vezes de forma sucessiva ou simultânea. A pessoa no centro da prática consente e é geralmente ela quem organiza a noite ou decide as condições. Não é uma prática para principiantes — exige um excelente conhecimento de si próprio, uma comunicação clara com todos os participantes e, muitas vezes, um «dungeon master» ou organizador que assegure que tudo decorre dentro dos limites definidos.
Bukkake é uma variante específica em que vários homens ejaculam sobre uma pessoa. É uma prática que teve origem no cinema pornográfico japonês e que foi adotada em alguns círculos libertinos. Como todas as práticas intensas, exige um protocolo rigoroso de saúde sexual.
Dogging: o exibicionismo ao ar livre
Dogging designa encontros sexuais semipúblicos, frequentemente em parques de estacionamento, florestas ou zonas isoladas durante a noite. O termo é inglês — vem da época em que os observadores alegavam estar a «passear o cão» para justificar a sua presença nessas zonas. Em França, a prática existe em locais conhecidos pelos iniciados e combina exibicionismo, voyeurismo e encontros espontâneos.
A dimensão legal deve ser tida em conta: os atos sexuais em público continuam, teoricamente, a ser puníveis em França, embora a jurisprudência varie consoante o caráter efetivamente «público» do local. As zonas utilizadas para dogging são frequentemente suficientemente isoladas para que o risco jurídico seja baixo na prática — mas isso não é uma garantia.
O libertinismo online e a webcam
O libertinismo não acontece apenas presencialmente. Existe uma comunidade libertina ativa online: fóruns, plataformas de encontros dedicadas, sessões de webcam entre casais que consentem e partilha de fotografias e vídeos em espaços privados. É uma porta de entrada para casais curiosos que ainda não estão preparados para ir a um clube e é uma prática por direito próprio para quem encontra mais excitação na distância e no olhar mediado pela tecnologia.
É também um espaço onde as questões de privacidade são críticas. As fotografias e os vídeos não desaparecem da internet. O consentimento para partilhar deve ser claro e renovado a cada nova partilha. É um ponto em relação ao qual sou intransigente quando falo sobre o assunto com clientes.
Os acessórios que entram no libertinismo
O libertinismo é frequentemente acompanhado de uma atenção especial à encenação, às roupas e aos acessórios. Não para fingir — mas porque uma sexualidade assumida merece cuidado em tudo o que a rodeia.
No que toca à lingerie, são peças que passam do aperitivo vestido para a noite em lingerie: meias de rede autoadesivas ou meias de renda extensíveis que se adaptam a todos os tipos de corpo e permanecem no lugar, independentemente da atividade da noite. Para visuais mais elaborados, as meias cor de vinho com rosas bordadas e cinta-liga têm um efeito que dispensa apresentações.
No que toca aos acessórios BDSM — porque o libertinismo e o BDSM se cruzam frequentemente, embora sejam dois universos distintos — as algemas de pulso com ventosas permitem uma encenação ligeira sem danificar as paredes nem os móveis, o que é prático numa festa em casa de alguém. Para momentos de brincadeira sensorial a várias pessoas, uma varinha de penas com laço pode passar de mão em mão com grande efeito e por muito pouco dinheiro.
Para os casais que gostam de integrar brinquedos durante festas com um parceiro adicional ou em sessões de swing, um anel vibratório recarregável é muitas vezes muito apreciado — estimula ambos os parceiros em simultâneo e é um acessório que fala diretamente aos casais, não apenas a um deles.
As regras não escritas do libertinismo
Existem códigos no mundo libertino que ninguém te explica claramente antes de te veres confrontado com eles. Eu vou fazê-lo.
| Regra | O que significa na prática |
|---|---|
| Não = não, sempre | Uma recusa não precisa de explicação nem é negociável. Agradece-se e segue-se em frente. |
| Não se fala dos outros | O que acontece numa festa fica entre os participantes. Discrição absoluta quanto às identidades. |
| Vem-se em casal ou assumidamente a solo | Os homens sozinhos geralmente não são admitidos nos clubes. As mulheres sozinhas, sim. |
| Preservativo obrigatório | Em qualquer clube sério e com qualquer parceiro que não seja o parceiro habitual, depois de um teste com resultado negativo. |
| Um casal não se separa | Aproximar-se de uma pessoa sem o consentimento da outra é muito mal visto. Fala-se sempre com o casal. |
| O direito de mudar de opinião | Mesmo a meio de uma cena. Para-se, veste-se novamente a roupa e ninguém diz nada. |
| O balanço pós-festa | Falar com o parceiro no dia seguinte — ou nessa mesma noite — sobre o que sentiram é uma etapa que os libertinos experientes nunca ignoram. |
Como encontrar a prática certa entre todas estas?
A pergunta que faço sistematicamente aos casais que me perguntam por onde começar é: "Qual é a parte que mais vos atrai — o olhar, o contacto, a encenação ou a multiplicidade de parceiros?" Porque estes quatro eixos costumam dar uma indicação bastante clara.
És mais de olhar/observação
O candaulismo, o voyeurismo ou o dogging (enquanto espectador) são provavelmente as práticas que mais te irão entusiasmar. O libertinismo online pode ser uma excelente porta de entrada: observar, ser observado, sem a pressão física do contacto presencial.
És mais de contacto/diversidade de parceiros
O swing e o soft swing são ideais para ti. Começar pelo soft swing permite-te testar a dinâmica emocional sem mergulhar de imediato. Muitos casais permanecem no soft swing durante meses antes de decidirem se querem ou não ir mais longe.
És mais de encenação/poder
O libertinismo cruza-se aqui com o BDSM: candaulismo com uma dimensão de controlo, festas temáticas, trajes impostos. Esta área é particularmente rica para casais que gostam de brincar com dinâmicas de poder dentro de um contexto de confiança absoluta.
És mais de intensidade/coletivo
O gang bang organizado ou as grandes festas em clubes com múltiplos parceiros são experiências para pessoas que já sabem muito bem o que querem e que têm uma prática libertina suficientemente consolidada para navegar num contexto complexo. Não é uma prática para uma primeira experiência — e ninguém neste meio a considera como tal.
Saúde, segurança e a parte que não temos coragem de abordar
Não posso escrever um guia sobre libertinismo sem falar de saúde sexual. Não é por ser moralista — é porque os libertinos sérios têm uma atenção quase profissional a este tema, e foi uma das coisas que mais me impressionou quando comecei a frequentar este meio.
Os testes regulares às IST são uma norma na comunidade libertina experiente. Muitas pessoas fazem testes de três em três meses. A PrEP é muito conhecida e utilizada entre os libertinos ativos. Os preservativos estão presentes em todo o lado — nos clubes, claro, mas também nas malas de mão e nos bolsos dos casacos para festas privadas. Não é uma obrigação vivida como penosa — é uma marca de respeito pelos outros e por nós próprios.
A saúde emocional, essa, é um tema cada vez mais presente. Os libertinos de longa data falam muito mais abertamente do que antes sobre ciúmes, momentos difíceis e noites que correm bem fisicamente, mas mal a nível emocional. Não há vergonha em passar por uma noite e perceber que não era aquilo que se esperava. A vergonha está em não falar sobre isso com o parceiro.
O libertinismo, em toda a sua diversidade, é antes de mais uma prática de liberdade escolhida e de comunicação assumida. Cada prática tem os seus códigos, os seus rituais, as suas zonas de conforto e os seus limites que não devem ser ultrapassados sem acordo explícito. O que faz com que uma noite corra bem para toda a gente não é a prática escolhida — é a qualidade do diálogo antes, durante e depois. Talvez seja a única regra verdadeiramente universal neste universo que, de resto, tem muito poucas.
Um guia assinado por Alicia, a sua conselheira íntima há mais de 10 anos.
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