A masturbação feminina continua a ser um tema sensível, ainda envolto em silêncio e constrangimento, apesar de fazer parte do funcionamento natural do corpo. Quando falo de masturbação feminina, refiro-me a um gesto simples: descobrir-se, compreender as próprias sensações e aprender a escutar o corpo sem pressão. No entanto, apesar das mudanças sociais, este tema continua muitas vezes a ser deixado de lado. Neste artigo, vou rever contigo todos os conceitos básicos, mas também aprofundar o tema: compreender de onde vem este tabu, o que a ciência nos diz realmente e porque é que esta prática merece ser vista de outra forma.
O tema da masturbação feminina continua a ser um tabu, apesar dos grandes avanços em matéria de libertação sexual. Embora o prazer masculino tenha sido normalizado há muito tempo, o prazer das mulheres ainda enfrenta obstáculos culturais, sociais e psicológicos. Falar sobre masturbação feminina sem vergonha nem constrangimento é essencial para normalizar esta prática, benéfica tanto para o bem-estar físico como mental das mulheres. Vamos explorar as razões por detrás deste tabu, os benefícios pouco conhecidos da masturbação e as razões pelas quais esta prática não deve ser vista como uma ameaça para o casal, mas antes como uma prática positiva para ambos os parceiros.
Se quiseres compreender melhor o teu corpo, também podes consultar o guia do clitóris, que explica detalhadamente as zonas de estimulação e o seu funcionamento. Para uma abordagem ainda mais aprofundada, o artigo o clitóris, pequeno órgão, grande mal-entendido explica tudo o que a anatomia real revela — e que raramente é ensinado.
1. Porque é que a masturbação feminina continua a ser um tabu?
Herança cultural e religiosa
Há séculos que a sexualidade feminina está confinada a rígidos padrões morais e religiosos. Em muitas sociedades, o prazer feminino foi considerado ilegítimo ou secundário, reforçando a ideia de que o papel da mulher se limita ao de mãe ou esposa. A masturbação, entendida como um ato solitário de autossatisfação, ia assim contra esse papel social tradicional. Enquanto o prazer masculino foi amplamente tolerado, o prazer feminino permaneceu marginalizado.
Este contexto histórico deixou marcas profundas. Ainda hoje, algumas crenças persistem inconscientemente, influenciando a forma como as mulheres encaram o seu próprio desejo. Muitas mulheres masturbam-se em silêncio, sem falar sobre isso, por vezes até com uma espécie de sentimento residual de culpa que não conseguem explicar verdadeiramente. Compreender esta origem já permite ganhar alguma distância e libertar-se dessas imposições.
As pesquisas históricas também mostram que algumas épocas foram mais permissivas do que outras. A Antiguidade romana ou a Índia antiga (com o Kama Sutra) valorizavam o prazer feminino. Foram sobretudo os séculos mais recentes, marcados por uma visão restritiva da sexualidade, que instalaram o tabu tal como o conhecemos. Por outras palavras: este silêncio não é uma verdade universal, mas uma construção cultural que pode ser desconstruída.
Estereótipos de género e perceções do corpo
A falta de representações da masturbação feminina nos meios de comunicação social e na cultura popular também contribui para este tabu. Enquanto a masturbação masculina é frequentemente representada de forma cómica ou banal e até "normal", a masturbação feminina raramente é mostrada ou, quando o é, surge em contextos muito sexualizados e destinados ao prazer masculino. Esta sub-representação alimenta um desconhecimento geral e perpetua a ideia de que se trata de um ato anormal ou marginal.
O problema vai mais longe: quando as mulheres que se masturbam são representadas, é frequentemente para um olhar exterior. O prazer não é delas, torna-se um espetáculo. Esta confusão entre prática íntima e encenação alimenta a ideia de que a masturbação feminina tem necessariamente de ser estética, erotizada e performativa. Na realidade, a masturbação é muitas vezes desordenada, pragmática e, por vezes, muito rápida. Tal como a dos homens, afinal.
Também podes aprofundar este tema com este artigo: pornografia e influência, que mostra até que ponto as representações da sexualidade feminina no ecrã distorcem as expectativas e as práticas reais.
2. Os benefícios da masturbação feminina
Um poderoso anti-stress
A masturbação estimula a libertação de endorfinas, as hormonas do bem-estar, reduzindo assim a ansiedade e as tensões. Este simples gesto também favorece um sono melhor, ao relaxar os músculos e baixar o nível de cortisol, a hormona do stress.
Estudos recentes confirmam que a masturbação regular está associada a uma melhor qualidade do sono, a uma redução significativa do stress percebido e até a um efeito positivo nas dores menstruais. O orgasmo desencadeia uma cascata hormonal (oxitocina, endorfinas, prolactina) que atua como um ansiolítico natural. Muitas mulheres utilizam, aliás, a masturbação como forma de adormecer, e isso é perfeitamente legítimo do ponto de vista fisiológico.
Para saberes mais sobre o bem-estar, podes ler este artigo sobre massagem e relaxamento.
Autoconhecimento
Explorar o próprio corpo permite às mulheres compreender melhor as suas preferências sexuais e descobrir o que lhes proporciona prazer. Ao conhecerem o seu corpo, as mulheres conseguem comunicar mais facilmente as suas necessidades ao parceiro.
Este é provavelmente o benefício mais subestimado. Uma mulher que conhece o seu corpo sabe o que dizer, o que pedir e como orientar. Não espera passivamente que a outra pessoa adivinhe — participa ativamente no prazer partilhado. É também por esta razão que a masturbação é frequentemente recomendada por sexólogos a mulheres que têm dificuldade em atingir o orgasmo em casal: é preciso saber primeiro o que funciona connosco antes de esperar que outra pessoa o descubra em nosso lugar. O artigo simular o prazer aborda, aliás, esta realidade que muitas vivem em silêncio.
Também pode reforçar a confiança. Explico-te tudo aqui: como ganhar mais confiança na cama.
Saúde física
A masturbação estimula a circulação sanguínea na região pélvica, o que pode ajudar a prevenir alguns desconfortos associados à estagnação. Também contribui para manter o tónus do períneo, particularmente importante após um parto ou na aproximação da menopausa. As mulheres que mantêm uma vida sexual ativa (em casal ou sozinhas) conservam geralmente uma melhor lubrificação e sensibilidade ao longo dos anos.
Alguns acessórios podem acompanhar esta descoberta: os estimuladores clitorianos para uma estimulação externa precisa, os aspiradores clitorianos para uma sensação diferente sem contacto direto, ou os dildos para a estimulação vaginal. A oferta é vasta na categoria brinquedos sexuais para mulher, e a escolha certa depende, acima de tudo, do que queres explorar.
Para quem está a atravessar fases específicas, o artigo sobre menopausa e sexualidade e a reeducação do períneo oferecem informações complementares sobre a forma como o corpo muda ao longo da vida.
3. Masturbação feminina e casal
Desfazer ideias preconcebidas
Alguns homens encaram a masturbação feminina como uma forma de traição ou como uma indicação de que não conseguem satisfazer a parceira. Na realidade, é uma ideia falsa. A masturbação e a sexualidade no casal não são concorrentes: respondem a necessidades diferentes. Masturbar-se não significa que o parceiro seja insuficiente, tal como comer uma sanduíche ao almoço não significa que já não gostamos das refeições do jantar.
Os estudos em sexologia mostram, inclusivamente, o contrário: as mulheres que se masturbam regularmente referem, em geral, uma vida sexual a dois mais satisfatória. Conhecem melhor o próprio corpo, expressam mais facilmente os seus desejos e têm um desejo mais estável ao longo do tempo. A masturbação alimenta a sexualidade a dois; não a substitui.
Ligação e comunicação
Os casais que falam abertamente sobre as suas necessidades sexuais desenvolvem uma relação baseada na transparência. Poder dizer "gosto desta sensação" ou "preciso de mais tempo aqui" transforma a sexualidade a dois: o parceiro já não tem de adivinhar, e a mulher já não tem de fingir para abreviar algo que não está a funcionar. Este diálogo é mais fácil de iniciar quando cada pessoa já conhece o seu próprio corpo.
Alguns casais vão mais longe e integram brinquedos na sua intimidade partilhada. Isto não é uma admissão de fracasso: é uma abertura. Observar a parceira a dar prazer a si própria, ou utilizarem juntos um sextoy para casais, pode tornar-se uma poderosa fonte de cumplicidade.
Se quiseres aprofundar a dinâmica do casal, podes ler o guia do casal.
4. Como normalizar a masturbação feminina?
Educação sexual
Para ajudar os jovens a desenvolver uma relação saudável com o seu corpo, é essencial abordar estes temas sem constrangimentos. Uma educação sexual que exclui o prazer feminino transmite inevitavelmente a mensagem de que esse prazer não existe ou não é importante. Incluir o clitóris nos esquemas anatómicos, explicar que masturbar-se é normal e falar sobre a diversidade das sensações: são gestos pedagógicos simples, mas fundamentais.
Os países que integraram uma educação sexual abrangente (como os Países Baixos ou a Suécia) apresentam indicadores muito melhores: menos violência sexual, menos gravidezes precoces e maior satisfação nas relações na idade adulta. O conhecimento protege; o silêncio fragiliza.
Libertar a palavra
Muitas mulheres hesitam em falar da sua experiência. Entre amigas, o tema é muitas vezes contornado ou abordado em tom de brincadeira. No entanto, ousar falar sobre isso — mesmo de forma simples — muda imenso as coisas. Quando uma mulher descobre que outra partilha as mesmas práticas, as mesmas dúvidas e as mesmas incertezas, a vergonha dissipa-se por si só.
Os podcasts, livros e contas de Instagram dedicados à sexualidade feminina desempenham um papel precioso nesta libertação. Normalizam aquilo que era silenciado e dão palavras onde antes só havia silêncio. Quanto a mim, na minha loja, recebo todos os dias mensagens de mulheres que, pela primeira vez, me fazem perguntas que guardavam há anos. Este simples facto — ousar perguntar — já é um primeiro passo rumo à libertação.
Incluir os homens
Incluir os homens nesta discussão permite desconstruir ideias preconcebidas. Muitos homens nunca aprenderam como funciona realmente o corpo de uma mulher — não por falta de vontade, mas porque a educação não lhes transmitiu essa informação. Permitir-lhes fazer perguntas sem serem julgados, incluí-los na discussão e fazê-los ler artigos sobre a anatomia e o prazer feminino é a melhor forma de fazer as coisas evoluírem de maneira duradoura.
Um parceiro que compreende que a masturbação feminina não é uma concorrência torna-se também um amante melhor. Deixa de ter medo de ser insuficiente, acolhe o feedback da parceira com mais serenidade e constrói uma sexualidade conjunta mais viva. Esta mudança de perspetiva beneficia toda a gente.
Conclusão
A masturbação feminina é uma prática íntima, benéfica e, acima de tudo, normal. Faz parte integrante do funcionamento do corpo, tal como a respiração, a digestão ou a recuperação durante o sono. Encerrá-la num tabu é privar as mulheres de uma ferramenta de bem-estar, autoconhecimento e até saúde.
Hoje, tornou-se essencial considerar esta prática pelo que ela é: uma componente natural da saúde sexual. Não é um segredo vergonhoso, nem uma concorrência desleal para o casal, nem uma prática reservada às mulheres «libertadas»: é apenas uma forma simples e direta de nos conhecermos e cuidarmos de nós próprios. Quanto mais falarmos sobre isso com naturalidade, mais as gerações seguintes crescerão com uma relação tranquila com o seu próprio corpo. É provavelmente o presente mais bonito que lhes podemos transmitir.
Redigido por Alicia Deroussen, fundadora da Adopt1Toy — conselhos sem tabus, com benevolência.
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